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Gerador de ozônio: o que ele faz, o que não faz e quando é perigoso

Gerador de ozônio sobre um banquinho no meio de uma sala vazia, com a televisão coberta.
Imagem ilustrativa.

Um carro de fumante, um apartamento depois de um princípio de incêndio, um imóvel fechado por meses. Nesses casos, alguém logo sugere: "passa ozônio". E o ozônio costuma aparecer como a solução que limpa sem molhar, sem esfregar e sem produto.

Ele pode ajudar com o cheiro em alguns desses casos. Mas não limpa nada. O gerador de ozônio age no ar e na superfície do que encontra pelo caminho. Sujeira, mancha, urina e fuligem continuam onde estavam. E, enquanto ele trabalha, o ambiente fica proibido para qualquer ser vivo: gente, cachorro, gato, passarinho e planta.

Se você entender essas duas coisas, já sabe mais do que boa parte dos anúncios conta.

Como funciona

O ozônio é uma molécula com três átomos de oxigênio. O oxigênio que a gente respira tem dois. Esse terceiro átomo se solta fácil e gruda em outra molécula. Isso é oxidar. É por isso que o ozônio ataca o cheiro e também borracha, tecido e planta: ele não escolhe o que oxida.

O gerador de limpeza costuma fazer ozônio com uma descarga elétrica forte dentro de uma pecinha (chamada célula ou placa). Uma ventoinha puxa o ar do ambiente, o ar passa pela descarga e sai com ozônio. Existe também o tipo que usa lâmpada ultravioleta.

Como o ar tem nitrogênio e umidade, o aparelho que usa o ar da sala também produz outros gases indesejados junto com o ozônio. O Conselho Regional de Química de São Paulo considera esse tipo de captação imprópria para uso controlado.

O ozônio não dura para sempre. A Anvisa cita meia-vida de 22 a 40 minutos no ar, em temperatura ambiente. Meia-vida é o tempo para sobrar metade do gás. Mesmo assim, desligar o aparelho não libera o ambiente: o gás ainda precisa se dissipar, e o ar precisa ser trocado.

Para que serve e para que não serve

Onde ele costuma entrar:

Gerador de ozônio no assoalho de um carro vazio, com a porta aberta.
Imagem ilustrativa.
  • cheiro que ficou no ar e nas superfícies depois que a sujeira foi tirada: fumaça de incêndio, cigarro, mofo;
  • carro, depois da limpeza interna completa, inclusive o cheiro que sobra depois de vômito ou o de mofo no ar-condicionado;
  • imóvel fechado por muito tempo, depois da faxina.

A agência ambiental dos Estados Unidos (EPA) reconhece o uso de ozônio em concentração alta em espaço vazio, por exemplo depois de incêndio. A condição é que nenhuma pessoa e nenhum animal seja exposto. A mesma agência avisa que pouco se sabe sobre as substâncias que sobram depois dessa aplicação.

Onde ele não resolve:

  • Sujeira. Ozônio não tira mancha, pó, gordura nem resíduo. Ele não substitui aspirador, extratora nem pano.
  • Cheiro com fonte ativa. Se o xixi do cachorro está no fundo da espuma, o ozônio pode disfarçar o cheiro por um tempo. A fonte continua lá, e o cheiro volta.
  • O que está dentro de material poroso. A EPA diz que, mesmo em concentração alta, o ozônio pode não ter efeito sobre o que está entranhado em material poroso, como espuma e carpete.
  • Ar de casa com gente dentro. Em concentração dentro do limite de segurança, o ozônio não remove bem muitas substâncias que causam cheiro, nem fungos, bactérias e vírus. Para fazer efeito, a dose precisa ser alta, e dose alta não combina com ninguém no ambiente.
  • Desinfecção garantida. Ver a próxima parte.

O que o rótulo diz (e o que isso vale)

No anúncio e na caixa aparecem frases como "oxi-sanitização", "elimina 99,9% de vírus e bactérias", "mata ácaros e fungos", "purifica o ar", "acaba com o cheiro de vez", "não deixa resíduo". E um número grande de produção: 3.500, 5.000, 10.000 mg/h (miligramas de ozônio por hora).

Leia tudo isso como promessa de quem vende. Três motivos:

  1. O aparelho de ambiente não passa por registro na Anvisa. Na Nota Técnica 108, de 2020, a Anvisa diz que equipamento de ozônio para ambientes e superfícies não está sujeito à regularização dela. Diz também que, se a empresa promete ação contra micróbios, ela tem de ter os testes de eficácia e segurança. Na mesma nota, a Anvisa diz que não recebeu prova de que o ozônio funcione contra o vírus da covid.
  2. "99,9%" sempre vem de um teste com alguma condição. Que micróbio, em que superfície, com qual concentração e por quanto tempo? Sem o laudo na mão, o número não diz nada sobre a sua sala.
  3. O número de mg/h é a produção que o fabricante informa, não o que fica no ambiente. Quanto gás chega ao ar da sua sala depende do tamanho do lugar, do tempo ligado e do estado da peça que gera o ozônio, que tem manutenção e troca indicadas no manual. Sem um medidor, ninguém sabe quanto ozônio há no ar.

E "não deixa resíduo" não combina com o que se sabe: o ozônio reage com o que encontra e forma novas substâncias (mais sobre isso adiante).

Se uma empresa mostrar um "registro na Anvisa", vale perguntar para qual finalidade. Registro para um uso não prova eficácia na limpeza de ambientes.

As marcas que você vai encontrar

Nas lojas do Brasil, aparecem geradores de ozônio para carro e ambiente destas marcas (em ordem alfabética, sem ordem de preferência):

  • Magneti Marelli: o Ozonator MX4000, anunciado como de uso só automotivo, com até 4 gramas de ozônio por hora. A marca fala em 15 minutos para um carro médio, 25 para um SUV, cerca de 1 hora para uma van e 2 horas para um ônibus, e diz que a operação é para profissional treinado, com máscara própria e em local aberto.
  • Mahovi: o MAH-4010, anunciado com 5 gramas por hora e vendido para higienização de veículos.
  • Medical San: o Ozonyx, anunciado para ambientes de até 120 m², inclusive casa e carro, com até 1.000 mg/h.
  • Wier: o OZ Pro, de 100 watts, anunciado para veículos e ambientes de até 70 m². O anúncio não informa a produção de ozônio.

Os números acima são os anunciados, e as promessas de matar vírus, bactérias e fungos são de cada marca. Os tempos de aplicação também: eles dizem quanto o aparelho fica ligado, não quando o lugar está liberado para entrar. Os modelos mudam com frequência, então confira a ficha e o manual do modelo exato. Se você vai contratar, a marca da máquina pesa menos do que o jeito de usar: casa vazia, tempo de espera, ventilação e medidor.

Segurança: o passo a passo que não se negocia

Ozônio é um gás tóxico. A Anvisa o descreve como muito reativo, irritante e tóxico. A regra de trabalho no Brasil (NR-15) põe o limite de exposição do trabalhador em 0,08 ppm (partes por milhão), para até 48 horas por semana. Esse é um limite para quem trabalha, não uma garantia de que a casa está liberada. Por isso o processo tem ordem:

Sala com janela e porta da varanda abertas, para ventilar depois do ozônio.
Imagem ilustrativa.
  1. Limpar antes. Aspirar, lavar, tirar o lixo, achar a fonte do cheiro. Ozônio é a última etapa, não a primeira.
  2. Esvaziar o ambiente de vida. Ninguém dentro: nem pessoa, nem cachorro, nem gato, nem pássaro, nem peixe no aquário, nem planta. Planta também sofre com ozônio. E ozônio não se aplica sobre pessoas: a Anvisa não autoriza.
  3. Isolar. Fechar portas e janelas do cômodo tratado. O gás passa por frestas e chega aos outros cômodos, então a casa toda fica vazia durante a aplicação e a espera.
  4. Tirar o que pode estragar (lista na próxima parte), e também gasolina, óleo, solvente e qualquer inflamável.
  5. Ligar com temporizador e sair. O aparelho deve ter desligamento automático. Ninguém entra para "dar uma olhadinha". O tempo ligado depende do tamanho do lugar: no carro, quem faz o serviço costuma usar de 15 minutos a 1 hora; o manual de um gerador profissional vai de 30 minutos num cômodo pequeno a 3 ou 4 horas numa área grande.
  6. Esperar. O tempo muda com o tamanho do ambiente, a produção e o manual de cada aparelho. O manual de um gerador profissional, por exemplo, manda voltar só de 12 a 24 horas depois que o aparelho para de produzir ozônio. Na prática, há quem libere o carro depois de 10 a 20 minutos de portas abertas. A distância entre esses números é grande, e é por isso que quem faz o serviço deve dizer o tempo do aparelho dele, de onde tirou esse número e como mede o ar antes de liberar.
  7. Ventilar. A troca de ar faz parte do serviço. Quem contrata não deve ser a pessoa que entra no ambiente com gás para abrir as janelas.
  8. Não confiar no nariz. O ozônio tem um cheiro próprio, parecido com o do ar depois de um raio ou com cloro. Mas ele embota o olfato: depois de um tempo, a pessoa deixa de sentir o cheiro mesmo com o gás ainda no ar. O jeito certo de saber se o ambiente está liberado é com um medidor de ozônio.

Mais um cuidado: o ozônio alimenta o fogo (é comburente). Não se aplica ozônio com inflamável ou vapor de solvente no local, como o de certos impermeabilizantes. E não se aplica em cômodo recém-pintado: o manual do fabricante proíbe.

No carro, a lógica é igual. Antes, sai do carro tudo o que não é dele, e porta-luvas e compartimentos ficam abertos, para o ar circular. O carro fica fechado, com o aparelho dentro e ninguém dentro, e depois fica com as portas abertas até o ar trocar. Quem faz o serviço costuma deixar o ar-condicionado em recirculação durante a aplicação, para o gás passar pelos dutos. Se o motor precisar ficar ligado, o carro fica em lugar aberto, nunca dentro de garagem fechada.

O que o ozônio estraga

O mesmo poder que oxida o cheiro oxida o material. A EPA cita danos a borracha, capa de fio elétrico, tecidos e obras de arte com corantes sensíveis. A Anvisa cita a borracha natural. Na prática, a lista de atenção fica assim:

  • Borracha: vedação de porta e janela, borracha do carro, elástico, mangueira.
  • Fiação: a capa do fio é um ponto fraco. Eletrônico caro sai do cômodo.
  • Tecidos e corantes: quadro, tapete antigo, tecido de valor e roupa de cor forte saem do ambiente.
  • Plantas: saem sempre, e não voltam antes da ventilação.

Aplicar de novo e de novo aumenta o desgaste. "Quanto mais, melhor" não vale para ozônio.

O ozônio também reage com o que já está no ar e no carpete e forma novas substâncias, algumas irritantes. Com resíduo de cigarro, isso pode deixar partículas no ar por horas. Num teste com carpete novo, a quantidade de substâncias no ar subiu depois do ozônio, e o formaldeído não caiu. Mais um motivo para ventilar bem depois.

Ozônio ou tirar a fonte do cheiro?

Esta é a escolha que mais importa.

OzônioLimpar a fonte (extratora, produto enzimático, lavagem)
O que fazOxida parte do cheiro que ficou no ar e nas superfíciesTira a sujeira que produz o cheiro
Quando faz sentidoCheiro espalhado, sem fonte única, depois da limpezaCheiro com origem: xixi, vômito, suor no colchão, comida no estofado
Molha?NãoSim, e o estofado precisa secar
Precisa sair de casa?Sim, durante a aplicação, a espera e a ventilaçãoSiga a orientação de quem faz o serviço
O cheiro volta?Volta, se a fonte ficouTende a não voltar, se a fonte saiu

O produto enzimático é usado contra matéria orgânica, como urina e vômito. Siga o rótulo e não misture produtos. A extratora injeta a solução no tecido e puxa de volta, levando a sujeira junto.

Nossa opinião: o ozônio é o acabamento, não o serviço. Num carro de fumante, ele vem depois de lavar banco, teto e carpete. Num colchão com cheiro de xixi, o caminho é tirar a urina do tecido e da espuma. O ozônio, sozinho, só adia o cheiro. Depois de incêndio, ele entra no fim, quando a fuligem já saiu.

Perguntas frequentes

Posso ficar em outro cômodo durante a aplicação?

Não. O gás passa por frestas. Durante a aplicação, a espera e a ventilação, a casa fica vazia.

Quanto tempo depois posso entrar?

Depende da produção, do tamanho do lugar e do manual do aparelho. Quem faz o serviço deve dizer o tempo e como confere se o ar está liberado. Sem medidor, não dá para ter certeza, porque o nariz se acostuma ao cheiro do ozônio.

O cheiro de cigarro sai de vez?

A chance é maior quando a fumaça impregnada é tirada antes: forro do teto, banco, cinto, plásticos, carpete. Se só o ozônio entrar, o cheiro pode voltar. Em carro de fumante de muitos anos, nem a limpeza completa com ozônio no fim garante tirar tudo, porque o cheiro entra em lugares que quase não se limpam, como a manta atrás do painel.

Ozônio mata ácaro do colchão?

Essa frase aparece em anúncio, sem prova que a sustente. O ozônio não garante agir no que está dentro de material poroso, como a espuma. E ácaro morto continua no colchão. Para o colchão, o caminho é aspiração e limpeza do tecido.

Vale comprar um gerador para usar em casa?

Nossa opinião é que não. O aparelho exige casa vazia, tempo de espera, ventilação e medidor para saber se o ar está liberado. O risco real é ele ser ligado "rapidinho" com alguém no quarto. Para cheiro em casa, comece tirando a fonte e ventilando.

Purificador de ar "com ozônio" é a mesma coisa?

Não deveria ser usado como se fosse. Em nível seguro para quem está na sala, o ozônio não limpa o ar de verdade. Aparelho feito para ficar ligado com gente por perto não deve produzir ozônio de propósito.

Tem de repetir?

Repetir sem tirar a fonte não resolve e aumenta o desgaste de borracha e tecido. Se o cheiro voltou, procure a fonte antes de pensar em outra aplicação.

Antes de contratar, pergunte

"O ozônio vem depois de qual limpeza?" Resposta boa: explica a limpeza antes (lavagem, extração, aspiração) e diz que o ozônio é o fim. Luz amarela: "o ozônio resolve sozinho, nem precisa lavar".

"Quanto tempo fica ligado e quanto tempo eu espero para voltar?" Resposta boa: um tempo para cada etapa, tirado do manual do aparelho, e quem faz a ventilação. Luz amarela: "em 15 minutos você já pode entrar" ou "pode ficar em casa, é natural".

"Quem precisa sair?" Resposta boa: todo mundo, inclusive bicho e planta, da casa inteira. Luz amarela: qualquer exceção.

"Vocês medem o ozônio antes de liberar?" Resposta boa: sim, com medidor de ozônio. Luz amarela: "não precisa, o ozônio vira oxigênio na hora" ou "é só não sentir mais o cheiro".

"O que vocês tiram do ambiente antes?" Resposta boa: cita planta, aquário, eletrônico, borracha, tecido delicado e inflamáveis. Luz amarela: não sabe que ozônio estraga material.

"Qual a produção do aparelho e como vocês sabem quanto ozônio fica no ar?" Resposta boa: diz a produção do aparelho em mg/h, explica o tempo escolhido para o tamanho do seu ambiente e como mede o gás no ar. Luz amarela: só repete o número da caixa, garante "99,9%" sem laudo ou mostra "registro" de outra finalidade como prova de desinfecção.

"No carro, onde fica o carro e o motor fica ligado?" Resposta boa: lugar aberto e ventilado, e portas abertas depois. Luz amarela: carro ligado em garagem fechada.

Para fechar

Pense no ozônio como acabamento: ele vem depois de a limpeza estar feita. Contrate a limpeza primeiro e o ozônio por último, se ainda precisar.

Peça indicação de quem já usou o serviço em caso parecido com o seu (carro, incêndio, mofo). Prefira quem faz a limpeza completa e usa o ozônio como uma das etapas. Desconfie de "ozonização" barata sem limpeza junto: pergunte quais etapas estão incluídas e quanto tempo cada uma leva.

E combine o dia pensando no depois: onde vão ficar as pessoas, o cachorro e as plantas, e por quantas horas.

Nosso conselho único: se alguém disser que dá para ficar no ambiente enquanto o aparelho funciona, não contrate.

Setor de odores e pós-sinistro